A cada 8 de março celebramos a força dos movimentos de mulheres que, em todos os cantos do mundo, sustentam lutas por igualdade, justiça, direitos e dignidade. Mas, para além dos discursos e das comemorações, há uma pergunta política fundamental que continua atravessando essas lutas: quem financia a mudança social, como e sob quais condições esses recursos são distribuídos?
Porque a igualdade também se constrói —ou se bloqueia— no terreno do dinheiro.
As organizações e movimentos de mulheres têm sido historicamente motores fundamentais de transformação social. Impulsionaram avanços em direitos reprodutivos, enfrentaram a violência de gênero, defenderam territórios e bens comuns, apoiaram comunidades em situações de crise e construíram redes de cuidado e solidariedade onde Estados e mercados falharam.
No entanto, quem sustenta essas lutas muitas vezes o faz em condições de enorme precariedade financeira.
Durante décadas, o financiamento internacional para a igualdade de gênero tem sido insuficiente, fragmentado e muitas vezes condicionado por agendas externas. Os recursos destinados diretamente a organizações feministas e de mulheres continuam sendo mínimos em comparação com o volume total da cooperação internacional. E, dentro desses recursos já escassos, organizações do Sul Global —especialmente aquelas lideradas por mulheres indígenas, afrodescendentes ou de territórios rurais— enfrentam ainda mais barreiras para acessá-los.
Essa realidade não é acidental. É o resultado de estruturas de poder profundamente desiguais, atravessadas por relações coloniais, raciais e de gênero que também operam no campo do financiamento.
Por isso, falar de financiamento feminista não é apenas falar de dinheiro. É falar de redistribuição de poder.
Um financiamento verdadeiramente feminista implica reconhecer que as organizações e movimentos que estão na linha de frente das lutas por igualdade não são simplesmente “implementadoras de projetos”. São atores políticos fundamentais, produtores de conhecimento, de estratégias de mudança e de alternativas para construir sociedades mais justas.
Implica também transformar as formas pelas quais os recursos são distribuídos e geridos: mais financiamento direto para organizações de base, fundos flexíveis e de longo prazo, confiança na liderança de quem trabalha nos territórios e processos que reduzam as barreiras burocráticas que muitas vezes excluem quem mais precisa acessar esses recursos.
Mas, sobretudo, implica algo mais profundo: reconhecer o valor do trabalho político e comunitário sustentado por milhões de mulheres em todo o mundo.
As defensoras de direitos humanos, lideranças comunitárias, ativistas feministas e mulheres que organizam redes de apoio e cuidado, que denunciam injustiças e imaginam futuros diferentes, não deveriam ter que sustentar essas lutas a partir da precariedade ou do sacrifício pessoal permanente.
Seu trabalho não merece apenas reconhecimento simbólico. Merece recursos, apoio e sustentabilidade.
Na VOZES acreditamos que o financiamento é uma ferramenta estratégica para transformar estruturas de desigualdade. Por isso trabalhamos para fortalecer o acesso a recursos de organizações e movimentos que impulsionam agendas feministas, de justiça social e de direitos humanos, e para promover formas de financiamento mais justas, transparentes e transformadoras.
Porque quando o dinheiro é distribuído de outra maneira, também se redistribuem as possibilidades de construir o mundo que queremos.
Neste 8 de março, celebramos as lutas que as mulheres sustentaram ao longo de gerações. Mas também reafirmamos uma convicção política: não há igualdade sem recursos.
Financiar os movimentos feministas não é caridade. É uma condição necessária para a justiça.