Enquanto tentamos transformar o contexto, o que esse contexto está transformando nas nossas organizações?

As organizações feministas e de direitos humanos desenvolveram uma enorme capacidade de ler o contexto em que trabalham. Analisam mudanças políticas, identificam rapidamente retrocessos, acompanham as transformações nas agendas de financiamento, avaliam riscos e ajustam estratégias diante de cenários que mudam cada vez mais rápido. É uma parte central do seu trabalho e, em muitos casos, uma condição para continuar fazendo-o.

No entanto, há outra dimensão dessa leitura à qual talvez prestemos menos atenção. Trata-se de entender o que esse mesmo contexto está fazendo com as organizações, com suas prioridades, suas formas de tomar decisões, a maneira como distribuem o tempo e os recursos e, em definitivo, com a forma que vão adquirindo enquanto tentam responder a tudo o que acontece lá fora.

As organizações também se transformam enquanto respondem. Uma crise de financiamento pode levar a aceitar projetos que alguns anos atrás pareciam distantes demais da agenda própria. Uma conjuntura política especialmente hostil pode instalar uma dinâmica de urgência que depois se torna difícil de abandonar. A redução de uma equipe pode fazer com que determinadas decisões ou conhecimentos se concentrem cada vez mais em poucas pessoas. A necessidade de demonstrar resultados pode multiplicar os sistemas de acompanhamento e relatório até ocupar uma parte enorme do tempo disponível. Uma oportunidade de financiamento pode abrir uma linha de trabalho que, com os anos, fica incorporada à organização sem que ninguém volte a questionar seu sentido.

Muitas dessas decisões são razoáveis e algumas são inevitáveis porque as organizações precisam se adaptar às condições em que trabalham. Essa capacidade de adaptação foi fundamental para que muitos movimentos e organizações pudessem atravessar contextos particularmente difíceis. O que me parece importante é poder reconhecer quando essas respostas, que em algum momento foram decisões diante de uma situação concreta, começam a se converter em formas permanentes de funcionamento que já quase não revisamos.

Nos processos de avaliação, pesquisa e fortalecimento institucional que acompanhamos desde a VOZES, essa tensão aparece de maneiras muito distintas. Encontramos organizações fazendo muitíssimo, com equipes profundamente comprometidas e capazes de sustentar um trabalho extraordinário em condições muito complexas. Ao mesmo tempo, aparecem agendas que foram se acumulando, pessoas que concentram uma quantidade enorme de responsabilidades e conhecimento, projetos que continuam porque sempre estiveram ali, equipes com muito pouco tempo disponível para pensar coletivamente além da próxima entrega e uma sensação de cansaço e de necessidade de cuidado que atravessa cada vez mais conversas.

Alguns dados ajudam a dimensionar essa realidade. Em um levantamento do Fund for Global Human Rights1, por exemplo, cerca de 60% das organizações consultadas indicou que integrantes de suas equipes ou pessoas voluntárias haviam atravessado desafios de saúde mental durante o último ano. Não creio que esse dado deva ser lido apenas como uma questão vinculada ao bem-estar das pessoas. Também pode nos ajudar a olhar para as condições organizacionais em que estamos tentando sustentar, muitas vezes durante anos, um trabalho que se desenvolve sob uma enorme pressão.

Durante muito tempo, boa parte das conversas sobre fortalecimento institucional esteve orientada a melhorar as capacidades das organizações para fazer seu trabalho: planejar, gerir recursos, produzir evidência, medir resultados, fortalecer equipes, diversificar financiamento ou construir melhores sistemas internos. Mais recentemente, dimensões centrais como o cuidado e o bem-estar também entraram nessa conversa. Todas essas capacidades continuam sendo importantes, mas diante do contexto atual, me pergunto se não precisamos fortalecer também a capacidade das organizações de se observarem a si mesmas e reconhecer o que está acontecendo com elas enquanto tentam se adaptar, responder e se sustentar.

Isso supõe olhar para a organização de uma maneira um pouco mais ampla e ao mesmo tempo mais profunda. Revisar o que termina definindo na prática suas prioridades, como se distribuem o tempo, os recursos e a atenção, quais relações se tornaram fundamentais, onde se concentra o conhecimento e quem carrega determinadas responsabilidades. Também supõe poder voltar sobre decisões e práticas que alguma vez tiveram uma razão clara e nos perguntar se ainda a têm, ou reconhecer que certas coisas que assumimos como próprias foram respostas a condições externas que mudaram ou que talvez já não queiramos continuar reproduzindo.

São questões que podem parecer muito internas, mas que estão profundamente vinculadas à capacidade política de uma organização. A maneira como distribuímos os recursos expressa prioridades; a forma como tomamos decisões distribui poder; aquilo a que dedicamos tempo e atenção termina definindo, em boa medida, que trabalho é possível fazer. O mesmo ocorre com os financiamentos que aceitamos, as relações que construímos, as capacidades que decidimos desenvolver e aquelas coisas que, mesmo sendo valiosas, escolhemos deixar de fazer.

Por isso talvez também precisemos revisar algumas das ideias com as quais pensamos historicamente a fortaleza e a sustentabilidade das organizações. Sustentar uma organização não pode significar apenas conseguir que continue funcionando diante de condições cada vez mais adversas. Importa também que ela possa conservar capacidade para decidir como quer funcionar, o que quer continuar sustentando e o que precisa modificar para continuar sendo uma organização a partir da qual seja possível impulsionar a transformação que busca.

Para fazer isso é preciso algo que se torna especialmente difícil quando tudo parece urgente: encontrar momentos institucionais para olhar. Não grandes processos de planejamento nem exercícios extraordinários, mas espaços nos quais seja possível sair por um momento da lógica de resposta e reconhecer o que foi se instalando, o que continua fazendo sentido e o que talvez precise mudar. Também para distinguir melhor o que estamos escolhendo e o que fomos incorporando simplesmente porque era necessário nos adaptarmos.

Em um momento em que as organizações feministas e de direitos humanos estão sendo chamadas a responder a cada vez mais crises com recursos que muitas vezes são menores ou mais incertos, essa capacidade me parece particularmente importante. Se o contexto inevitavelmente vai continuar transformando nossas organizações, precisamos ao menos poder olhar essa transformação enquanto ocorre e conservar alguma margem para intervir sobre ela. Porque a maneira como construímos, sustentamos e habitamos nossas organizações também condiciona a transformação que somos capazes de impulsionar a partir delas.

  1. Informe do FUND: https://fundhumanrights.org/wp-content/uploads/2024/10/FGHR-2023-Grantee-Partner-Survey-Learnings_webversion.pdf ↩︎