Women Deliver em Naarm: o que começa quando o evento termina

A cada três anos, milhares de pessoas que trabalham pelos direitos das mulheres e das pessoas de diversos gêneros convergem num mesmo lugar. Women Deliver 2026 concentrou durante uma semana vozes, organizações, movimentos e debates que raramente conseguem coincidir num mesmo espaço físico.

Voltamos com muitas reflexões que queremos compartilhar.

Women Deliver não aconteceu no vácuo. Aconteceu num momento em que os discursos antidireitos não apenas estão presentes, mas ganharam terreno institucional, financeiro e narrativo numa velocidade que há poucos anos teria parecido impensável. As regressões já não são ameaças no horizonte — são políticas em curso, orçamentos cortados, organismos desmantelados, palavras apagadas de documentos que custaram décadas para ser construídos.

Nesse contexto, reunir-se adquire um significado diferente. Não é um luxo nem um ritual. É, também, um ato político.

O financiamento: a conversa que esteve em todo lugar

Se há um fio que atravessou quase todas as discussões da semana, foi o do financiamento. Ou mais precisamente, sua contração. O corte da cooperação internacional, o recuo de doadores históricos, a pressão sobre organizações feministas e de base para justificar sua existência em termos cada vez mais instrumentais — tudo isso estava presente, com nomes e com cifras, em sessões formais e em conversas de corredor.

Não é um tema novo. Mas a magnitude e a velocidade do que está ocorrendo lhe conferem uma urgência diferente. As organizações que sustentam os movimentos — especialmente as menores, as mais territoriais, as do Sul Global — estão absorvendo golpes que nem sempre se tornam visíveis nos grandes diagnósticos. Na VOZES, temos trabalhado exatamente nisso: em gerar evidência sobre essas brechas estruturais, em valorizar o que os sistemas de financiamento tradicionais ainda não sabem medir. Women Deliver confirmou que essa tarefa é mais necessária do que nunca.

O relacional como estratégia

Há uma armadilha fácil ao avaliar esses espaços: olhá-los com lógica linear, perguntando quais acordos concretos foram firmados, quais produtos foram gerados, o que mudou. A partir dessa lógica, a resposta pode parecer pouco satisfatória.

Mas o feminismo — e a visão sistêmica que o acompanha — nos ensinou a desconfiar dessa lógica. As mudanças mais duradouras raramente são as mais imediatas. São tecidas. E o que se tece nesses espaços não está no programa oficial: está nas conversas que começam nos corredores, nas confianças que se constroem nas margens, nas ideias que se cruzam entre pessoas que talvez não voltem a estar no mesmo lugar por muito tempo.

Isso parece pouco. E pode ser, se ficarmos por aí. Mas se soubermos levá-lo — se nos próximos meses convertermos esses encontros em colaborações reais, em projetos compartilhados, em algo concreto — então o impacto do encontro começa exatamente depois que o evento termina. A responsabilidade para que isso aconteça é nossa.

Criatividade estratégica: além das receitas conhecidas

Um dos momentos que mais nos ficou ressoando não foi um painel nem um discurso. Foi Simona Abdallah — tambores, corpo, presença — transmitindo em poucos segundos algo que nenhuma declaração conseguiu durante toda a semana. Essa imagem nos dá uma pista sobre algo que os movimentos precisam discutir com mais franqueza: num contexto em que os discursos antidireitos se movem com uma agilidade narrativa e uma criatividade tática que muitas vezes nos supera, seguimos respondendo com os mesmos formatos de sempre?

Assinar uma declaração tem valor. Mas como movimento estratégico central neste momento histórico, parece insuficiente — não porque as declarações não importem, mas porque os tempos exigem mais: mais criatividade, mais ruptura com os formatos herdados, mais disposição para experimentar coisas que não têm garantia de êxito, mas que podem mover algo diferente.

A pergunta não é se os mecanismos tradicionais servem. É se são suficientes.

O que nos faltou

Voltamos também com uma ausência. A América Latina esteve — mas menos do que gostaríamos. Chegar a Melbourne desde a região é um desafio real em termos econômicos, logísticos e de tempo, e isso não é pouco. Mas a energia particular dos movimentos latino-americanos — sua irreverência, sua criatividade tática, sua história de resistência — faz falta quando não está na mesma proporção que em outros espaços regionais. É também um lembrete de que a representação geográfica nesses fóruns continua sendo uma dívida pendente, e que os custos da participação não são neutros.

O que segue

Women Deliver termina. Os movimentos continuam. E o que fizermos com o que construímos nessa semana — as relações, as ideias, as perguntas em aberto — é o que determinará se esse encontro foi uma pausa ou um ponto de inflexão.

Na VOZES, seguimos apostando que a evidência bem produzida, as relações sustentadas no tempo e a criatividade nos formatos podem ser ferramentas tão poderosas quanto qualquer declaração. Não temos todas as respostas. Mas acreditamos que fazer as perguntas certas, nos momentos certos, também é uma forma de fazer política feminista.

E que nos encontrar — em corpo, em presença, com tudo o que isso implica — continua sendo indispensável. Especialmente agora.